A arte cumpriria assim a sua promessa perversa desde Baudelaire: descobrir, revelar e explorar as falhas e os lapsos, as ilusões do Real e as falácias da Razão.

Texto de Ronaldo Brito

O Novo Tardio

Espécie de bricolage brutal, inquietante e exaustiva, poderíamos nomear assim, provisoriamente, o processo de trabalho de Angelo Venosa.

Na origem está, com certeza, a inviabilidade do design, o conceito de boa forma e de projeto. O resultado aqui contraria acintosamente a idéia mesma de final: as diversas torções reflexivas, os traços patentes da atividade pesada e demorada, terminam estranhamente próximos ao arcabouço e ao arremedo. E assim permanecem - começos hipertrofiados, saturados, como se interrompidos pelo esgotamento físico e psíquico do artista na procura e elaboração da Forma atual, esta que vem a ser num agora moderno extenuado, cansado por mais de um século de manobras revolucionárias, desencantado por quase um século de institucionalização maciça.

O que torna tudo isto ainda atraente e convincente é a certeza absurda com que o escultor persegue a forma, busca uma estrutura estética, hipotética e esdrúxula que seja, em meio a um ambiente informe porque pobremente uniforme. A arte cumpriria assim a sua promessa perversa desde Baudelaire: descobrir, revelar e explorar as falhas e os lapsos, as ilusões do Real e as falácias da Razão. E replicar com um poema imponderável mas autêntico e verdadeiro. No caso a operação consiste na inversão simétrica da lógica formal dominante – a Forma obtida por obra e graça do informe e do disforme. De saída há uma decisão ética: a recusa do somatório de mais-ou-menos, a eletrônica da indiferença, que à força da rotina e pela lei da inércia acabam criando uma sucessão de objetos e, com isto, um mundo real, demasiado real, porém inconsistente. Contra essa lógica anódina, a vida pasteurizada, o trabalho empreende um debate cerrado de Sins e Nãos, seleções e escolhas imprevisíveis, problemáticas e instáveis, mas finalmente seleções e escolhas. Com toda a sua precariedade e indeterminação, estas são peças fortes e decididas: decididamente ambíguas, fortemente indefinidas. Quem lutou arduamente para conquistar identidade, fluida e mórbida até, se quiserem, não vai se dispor a cedê-la em favor de nenhum símbolo, imagem ou alegoria correntes. Ao contrário, frente a uma situação neutra e morna e que, por isto mesmo, cobra das coisas contorno e caráter prontamente reconhecíveis, o trabalho não oferece outra resposta senão a sua própria existência experimental; nenhum credo ou moral a não ser o de levar adiante os seus agenciamentos casuais, singulares e transitórios, porém intensos.

E o pathos seria, a meu ver, sem nenhuma afetação, pós-nuclear. A começar pela completa indistinção entre natureza e indústria na escolha e utilização dos materiais. Um imaginário por assim dizer calcinado assegura a congruência paradoxal entre elementos díspares e fraturados que servem de objeto a uma reconstituição quase ortopédica. Eles já aparecem, portanto, depois da destruição. Como se todo aparecimento, a essa altura, fosse tardio e irrecuperável. Ainda assim a arte promoveria exatamente o ato de positivar e autenticar o momento deste segundo aparecimento. Para fazer com que, como disse André Breton a propósito da figura decrépita de Artaud, a Juventude se reconheça sempre nesses "estandartes calcinados".

Rio de Janeiro, setembro de 1987